Monday, January 28, 2008

O LUGAR DO CARANGUEJO

O Caranguejo recebia a tarde dourada que se estendia num alvoroço fora do comum. Havia um cheiro a descoberta e um ar de maresia próprios do lugar. Em Rabo de Peixe, o meio dia adivinhava-se já nas sombras que o casario desenhava. Descia uma vez mais à Cova da Moura. Uma visita quase sempre “desconcertante” pelas ruelas que se perdem no arrendado luxuriante de pés descalços, janelas abertas, mulheres e aventais, remos e escamas, ranhos e gargalhadas, como um palco desvendado pelo pano que se abre para mostrar o bater do coração de uma história. Ali estava o Caranguejo, como nunca o vira antes: colorido, barulhento, aromatizado, abarrotando de vida. Um arraial de tonalidades, de cheiros, gentes e cores.
O centro do bairro, delimitado em forma de quadrado, redesenhava-se com fios e canas ostentando a roupa lavada num emaranhado de feitios, cores e gostos. As vagas do vento entravam no ventre do Caranguejo transportando aqueles cheiros de musgo e lapa colada na pedra, enquanto chicoteavam de leve a roupa no estendal. Um acampamento em tempo de romaria abençoado pelo bailado de trapos e aromatizado pelos fumos que esvoaçam das panelas onde se cozinha ao ar livre os intestinos do bovino para a dobrada do jantar.
Aqui e ali cabelos flutuam fora dos lenços multicoloridos, enquanto as mulheres conversam nos cantos ou em pequenos grupos junto às suas panelas. Os filhos descalços e as filhas amadurecendo os corpos ostentam peles morenas e salgadas. Os mais pequenos sentados aos colos das avós na soleira da porta: um corisco e um excomungado…as pragas do lugar atiradas aos ventos que as vão vomitar nas fundas do rochedo da costa negra, tormentos do olhar de quem tem nas águas o sofrido gosto da alegria. Assim vi o Caranguejo naquela tarde bela de encantos. Sorvendo o cheiro do peixe seco nas fendas da rocha, embarcando nos aromas da dobrada cozida ao relento, dançando ao sabor do vento entre a roupa que as Américas já não vomitam, celebro a exclusividade do espaço, lamentando a contínua leveza dos seres que ali exaltam os méritos dos dias e das noites na pacatez dolente das marés ou no alvoroço dos mares tormentosos. Assim, dia após dia, multiplico a minha solenidade e perpetuo uma humanidade sem grandes promessas.

2 comments:

Unknown said...
This comment has been removed by a blog administrator.
island said...

Custa-me quando as pessoas brotam para as realidades. Por vezes - muitas vezes doridas - mas nem por isso menos libertadoras.
um beiinho
Aguardo.