Thursday, May 29, 2008

OS PORTUGUESES MUDARAM TORONTO

Tal como os pais, os jovens
portugueses dão valor ao trabalho




Entrevista e fotos
Humberta Araújo
Toronto

“A comunidade de língua portuguesa é vibrante, activa e integrada na cidade em áreas tão diversas como a cultura, os negócios e a política. É literalmente possível dizer-se que a comunidade portuguesa, foi uma das comunidades que construiu Toronto. Os portugueses foram muito activos no movimento sindical assegurando protecção aos trabalhadores. Numa perspectiva muito pessoal, recordo que a minha mãe ao vir para Toronto após ter vivido em Londres durante o “blitz” acabou por abandonar a cidade. A razão, segundo me disse, foi porque achou Toronto “desinteressante”. Esta situação mudou definitivamente a partir dos anos 50 e 60. Toronto tornou-se numa cidade dinâmica, viva e de sucesso. A comunidade portuguesa é uma das razões desta mudança. De uma cidade tipo presbisteriana, Toronto passou a ser uma urbe mais europeia, com charme e interesse. Sem dúvida que os portugueses contribuíram, enormemente para esta mudança."
Impostos para todos
Os membros da comunidade de língua portuguesa, tal como todos os outros cidadãos deste município contribuem para as finanças da autarquia e são afectados por toda e qualquer decisão do município. David Miller diz estar consciente da situação e que apesar dos apertos financeiros do orçamento camarário, que obrigaram à implementação de novos impostos, estas novas cargas fiscais não afectam os trabalhadores. "Com a integração de outros municípios, a cidade não possuía os fundos financeiros necessários para fazer aquilo que os seus munícipes esperavam. Desde esta altura – 10 anos ainda antes da minha presidência - que o município tem sobrevivido com dificuldade. Tivemos algum apoio do governo provincial de Dalton McGuinty, mas continuamos a ter problemas financeiros, em parte devido ao facto de o governo ter transferido para a câmara responsabilidades da província nas áreas dos serviços sociais e transportes, que agora devem ser pagos pela cidade. Os novos impostos foram para meter os nossos ‘livros’ em ordem. Posso dizer que este ano temos o nosso primeiro orçamento equilibrado. Assim pudemos conservar serviços essenciais para os cidadãos, entre eles os portugueses."
Consciente da polémica em torno do “Land Transfer Tax” Davi Miller continua a defender o novo imposto, considerando-o justo. “Na minha perspectiva este é um imposto equitativo porque atinge quem tem mais, financiando os serviços para todos. É também um imposto progressivo. Se tem uma casa que vale mais do que um milhão de dólares, o imposto cobrado durante a transacção reverte a favor da cidade. Obviamente, que esta pessoa paga substancialmente mais do que se a casa custasse 250 mil. Se a sua casa vale menos de 400 mil e é a primeira vez que concretiza uma transacção não paga nada." Na prática”assegura Miller “este imposto progressivo cobra aos que têm mais, em beneficio de todos e, especialmente dos que possuem menos. Acho que esta filosofia se adapta perfeitamente aos princípios dos canadianos e possibilitou-nos que preservássemos não só serviços actuais, como investíssemos em novos programas que as pessoas desejam.”

“Vamos ganhar o GST”
Para David Miller estas medidas fiscais “ajudaram muito” embora existam ainda algumas áreas a rever, nomeadamente na forma de funcionamento do imposto sobre a propriedade. “Este ano arrecadamos exactamente o mesmo montante de impostos que o ano passado, com excepção para os novos imóveis. Na prática, se num local o valor de uma propriedade subir e, consequentemente aumentar o total arrecadado pelo imposto, noutro local da cidade outra pessoa paga menos. Por esta razão recebemos o mesmo. Porém, as nossas despesas continuaram a aumentar, em parte por causa dos serviços que usam combustíveis. O combustível continua a subir, mas nem por isso os dinheiros da câmara aumentam. O “Land Transfer Tax”vai ajudar um pouco a ultrapassar esta situação, mas a longo prazo vamos necessitar, tal como acontece na Europa de termos um imposto de venda – “Sales Tax”. Por isso “salientou o presidente da câmara, “estamos a trabalhar muito na campanha "1 cêntimo do GST.” Miller considera que a luta da edilidade a favor desta fatia do GST está já a dar passos significativos para a sua institucionalização. “Registamos já nesta matéria algum progresso. Os Liberais e o NDP mostram muita sensibilidade para a nossa luta. O governo federal dos Conservadores não tem neste momento ainda opinião positiva sobre o assunto. De registar, no entanto, que no Outono passado em algumas cidades, o imposto sobre gás foi implementado. Acho que tal aconteceu porque o parlamento aprovou tal medida na sequência da mossa campanha pelo GST. Levou-nos 7 anos para termos o imposto sobre o combustível. Estamos a lutar por uma fatia do GST há um ano. Cedo ou tarde vamos ver o nosso desejo realizado porque esta é uma luta justa.”
A propósito dos fundos federais para as cidades, Miller relembrou a sua recente visita à China, onde constatou situações em que os municípios usufruem de importantes meios financeiros advindos dos impostos federais. “Acabei de vir de uma visita à China e o município que visitei recebe metade das receitas fiscais. Nós recebemos seis cêntimos por dólar. Não admira que a China esteja a investir.”
Apesar dos contratempos nesta campanha por uma fatia do GST, David Miller está optimista. “Iremos ganhar esta luta. Uma percentagem de 65% dos canadianos concorda com esta medida. E quando os canadianos concordam, eventualmente o parlamento acaba também por concordar”.

“Temos que seguir o exemplo europeu”
Miller vê na Europa muitos exemplos a seguir pelos governos centrais relativamente ao seu espaço territorial. “Quando olhamos para a Europa, através da União Europeia ou outros, verifica-se investimento. Na Europa vê-se investimentos nas infra-estruturas e nas pessoas. Nós aqui temos uma cidade moderna, excepcional e da qual estamos muito orgulhosos. Todavia, necessitamos de investir também. Temos por exemplo um projecto nos transportes. O “Transit City” pretende construir um sistema de transporte rápido por toda a cidade. Já conseguimos algum dinheiro da província e estamos já a começar a construir três novas linhas. Os estudos de impacto ambiental estão em marcha. Estes investimentos criam empregos, tornam a cidade mais atractiva para quem nela quer viver.” Miller exprimiu a sua admiração pelo sistema europeu, considerando que ele tem apoiado o desenvolvimento integrado das suas parcelas. “Temos que começar a pensar do mesmo modo e a apanhar o comboio da Europa e da China para começarmos a andar.”



Uma das questões levadas ao presidente da câmara esteve relacionada com o facto da "Sociedade Portuguesa dos Deficientes/Society of Portuguese Disabled Persons" estar há muito tempo a lutar pela isensão dos impostos pagos pela propriedade onde funcionam os seus serviços. Apesar de ter ganho uma batalha ao ver o imposto comercial ter sido substituído pelo imposto habitacional, a luta vai no sentido da instituição ficar totalmente isenta de impostos sobre a propriedade. Apesar de promessas de alguns conselheiros municipais que estariam a lutar pela isenção, Miller diz desconhecer completamente a questão, afirmando estar disponível para analisar o problema concreto e encontrar soluções para o estrangulamento financeiro da instituição. “Existem questões a ponderar nesta situação: Os impostos provinciais, tem regras especificas ditadas pela província.
Dentro das regras provinciais a municipalidade tem alguma mobilidade. Esta situação particular nunca foi posta à minha consideração. É sempre um desafio para nós quando as pessoas transformam uma propriedade com estatuto comercial para outros fins acarretando para o município perca de rendimentos. Todavia, temos algumas politicas que se referem directamente a organizações sem fins lucrativos. É sem dúvida possível que possamos olhar para esta situação particular. Não lhe posso dar pormenores sobre este assunto em particular, até porque pode haver algumas regras provinciais que se apliquem. Mas caso sejam regras autárquicas podemos olhar, em particular, a este caso.”
A questão da criação de uma escola afro - centrista no município e as elevadas percentagens de abandono escolar no seio da comunidade portuguesa foram outros assuntos tratados com o presidente da câmara. A propósito Miller declarou ao Nove Ilhas que “eu não mando nas escolas. Evidentemente que tenho as minhas opiniões pessoais sobre o assunto. A questão de uma escola afro - centrista no nosso município é da inteira responsabilidade do executivo das escolas públicas. Estou igualmente consciente da questão que se relaciona com o abandono escolar dos jovens portugueses em Toronto, mas estes são assuntos que nos ultrapassam.”
Questionado sobre a possibilidade do município trabalhar em conjunto com a província para, no caso português, incentivar o apoio a programas de aprendizagem nas áreas dos ofícios, Miller foi peremptório.
“Nós estamos a trabalhar num importante número de iniciativas, particularmente na área dos ofícios. O Ontário tinha um programa de aprendizagem muito bom, que não foi seguido e protegido da forma como devia ter sido. Nós, cidade de Toronto, estamos a trabalhar com o governo provincial e bairros no sentido de assegurar que existam sistemas de formação profissional não só na área dos ofícios – que sabemos paga bem - mas também nas artes, nos novos media, entre outros.
A comunidade portuguesa dá muito valor ao trabalho e é normal que os jovens sigam esta filosofia de vida. Acredito que a eles se deve apresentar um vasto campo de possibilidades. Confesso que estou preocupado com a área dos ofícios pois parece-me que não tem sido dada a atenção especial que merece. Eles são muito importantes, especialmente para a cidade de Toronto, uma cidade líder na construção e afins. Temos por isso que assegurar que a formação profissional existe para quem escolhe outras formas de vida.
Buracos nas ruas: 5 dias promete Miller
O Inverno foi um dos mais rigorosos dos últimos tempos e as estradas sofreram substancialmente. “O Inverno foi muito mau, mas estamos também a pagar pelo facto da cidade nos últimos 15 anos ter deferido trabalhos de manutenção por causa de problemas financeiros. Nos últimos dois orçamentos começamos a resolver esta situação. Estamos a aumentar os serviços de manutenção e garantimos aos munícipes cinco dias no máximo, para repararmos qualquer buraco que encontrem, logo que sejamos informados. Acho que pelo final da Primavera teremos feito um bom trabalho na reparação das vias e as pessoas vão ver um melhoramento nestes serviços.”

Todos com direito à informação
A cidade de Toronto tem serviços diversificados para apoio ao munícipe e está empenhada em prosseguir serviços para todos os cidadãos. Todavia, por questões de língua não chegam a todos os munícipes. Uma delas, por exemplo referiu Miller diz respeito a uma campanha a favor do controlo de armas – Gun Ban - que Miller está a levar a efeito, Miller reconheceu ao Nove Ilhas que a cidade não tem feito um bom trabalho de informação junto dos seus constituintes.
Todavia, com a recente aprovação de novos poderes para o presidente, Miller assegura que os portugueses, como outras comunidades, vão ouvir falar mais da sua cidade. “Temos trabalhado cuidadosamente para que os órgãos de comunicação social de todas as comunidades sejam informadas dos nossos serviços e do que acontece na sua cidade. Mas a verdade é que a cidade não tem feito o melhor que pode para manter todos informados, situação que se reflectiu por exemplo, o verão passado quando tivemos que fazer cortes nos serviços camarários, porque os novos impostos tinham sido deferidos. As pessoas ficaram surpreendidas por que desconheciam que a cidade funciona num sistema de governo 'pay-as-you’.”
Esta situação resultou, segundo David Miller da estrutura existente na qual “todo o conselho administrava a cidade e ninguém era responsável por levar a mensagem para o exterior. Agora tenho esta possibilidade legal de o fazer." E, numa altura em que a comunidade portuguesa se prepara para celebrar Portugal, David Miller no final da sua conversa com o Nove Ilhas, deixou um agradecimento especial a toda a comunidade de língua portuguesa "pelo seu trabalho e contributo na construção da identidade desta cidade de Toronto."
Texto e fotos: Humberta Araújo

A TRINDADE


Faltaram os foguetes. Não que me pareçam imprescindíveis. Sempre os achei um incómodo. Incomodava-me aquele rebentar contínuo e, eu ali, debaixo de um sol quente, colada às mãos da minha avó, sempre à espreita não me fosse cair em cima um resto quente de uma roqueira ou de um bombão e, acabasse a festa no consultório do Dr. Sampaio. Não eram só as dores que me preocupavam. Agonizava-me a imagem do Dr. Sampaio, com o seu nariz pontiagudo a olhar para mim, com aquele cheiro a álcool e a desinfectante.
Felizmente, nunca fui ferida por nenhum foguete. Considero tal possível, porque segui sempre com muita atenção a trajectória daquelas canas voadoras, que os homens aqueciam numa das extremidades onde se encontrava o pequeno recipiente de pólvora, com a ponta do cigarro. Depois do arranque inicial, lá iam as roqueiras e os “bombãs” fazendo por vezes uns ziguezagues no céu, indo terminar as suas curtas e barulhentas vidas, nos pastos ou nos quintais mais próximos.
Quando não me era exequível visionar os seus percursos, tentava encostar-me o mais possível às fachadas das casas, para me abrigar debaixo das telhas, não fosse em dia santo o diabo tecê-las.
Mas ontem em Oakville não houve foguetes a estalar nos céus, mas houve de tudo o mais que a festa da Função obriga. O pequeno império ostentando a pombinha, as crianças no coreto a jogar à bola, o ferver das sopas e as mulheres rosadas a partilhar um copo e a gargalhada, o ajudante com o suor em bico enquanto vai coando o caldo, o senhor padre feliz por ter casa cheia, a menina que aprende a preparar os tapetes de flores para a procissão, o céu azul que partilha o horizonte com a ramagem fresca que baila ao sabor da aragem, e a bandeira vermelha rasgando o horizonte, enquanto o trombone transpira e o vinho transborda.
Nada pode ser mais açoriano que isso. Nada diz mais da nossa pertença a este império que os símbolos e os detalhes da nossa herança.

Wednesday, May 14, 2008

O Meu Nome é Saudade

"O Meu nome é Saudade" faz parte de um projecto internacional que a RTP vai emitir e que pretende dar a conhecer o mundo da diaspora "infanto-juvenil".
Deixe o seu comentario sobre a historia e o que pensa do projecto. Estrangeirismos e "erros" sao proprios da linguagem utilizada pelos personagens.

Humberta Araujo
Autora

O meu nome é Saudade
My name is “Saudade”

I

“Faz-me mállássádás, grandma”

A algazarra é grande na cozinha.
“Grandma, make me some mállássádás.”
“Maria, explica-me a esta minha neta, que não estamos no Carnaval.”
“Honey, your vavó can’t cook malassadas, now. We are not in Carnaval.”
“Please mom, ask vavó to make mállássádás for me. Pode ser just one…please.”
“Dear Nancy, vavó can’t just cook one malassada. Besides, they are just made during Carnaval. E agora estamos no Verão.”
“Mas eu gosta tanto, mãe. Please…”
“Ok Saudade,” diz a avó Beatriz, que escuta a conversa entre neta e filha. “Esta menina é uma gulosa. Granma vai cook malassadas for you. Mas diz direito com a avó: malassadas”
“Mállássádás.”
“No, Saudade! Malassadas.”
“Mállássádás.”
“Ok, mállássádás. Dá cá um abraço forte à tua granma.”
“ Thank you, querida granny. I love you.”
“I love you too, Saudade.”

Nancy, é o meu nome. Mas a minha avó chama-me Saudade. Por isso sempre tive dois nomes: aquele pelo qual sou conhecida na escola pelos professores e amigas; o outro pela minha avó. Na nossa casa, o meu pai que não é português, também me chama Saudade. A minha grandma não fala muito inglês. Ela emigrou para o Canadá há muitos anos para se juntar ao meu avô, que trabalhava nos caminhos-de-ferro. Mas eu sei que ela sabe mais inglês do que mostra. A minha avó é muito orgulhosa, e só quer que se fale português na nossa casa.
“Please grandma give me a cookie.”
“Não sei o que estás a dizer. Mas se queres ‘cookies’ o melhor é pedires biscoitos.”
E ela ri muito. Eu adoro rir com a minha grandma. A minha mãe também se diverte muito com a teimosia da minha avó. As duas estão sempre a falar entre si e, eu divirto-me imenso, a ouvi-las. Parecem duas papagaias. Eu percebo muito pouco do que dizem. Acho que isto é mau, porque com toda a certeza, fico sempre de fora de muitos dos seus segredos. O meu pai também quer aprender português para fazer parte das conversas entre a avó e a mãe. Ele costuma dizer, a brincar, que as duas conspiram contra ele.
Quando elas estão juntas, gosto de ficar abraçada ao meu daddy, a olhar a avó e a mãe à volta das hortaliças e das carnes, que elas transformam em deliciosos pratos e sobremesas portuguesas.
Amanhã na minha escola há um festival de culturas. Só na minha turma tenho amigos e amigas de oito países diferentes: China, Iraque, Brasil, Jamaica, Índia, México, África do Sul e Vietname. Cada um de nós leva um prato típico preparado pelas nossas famílias. Alguns alunos vestem os seus trajes típicos. Gosto muito deste festival, porque fico a conhecer novos costumes, e posso dançar ao som de músicas de outros países.
Para este festival a minha avó, com a ajuda do pai, prepara um prato de arroz- doce enfeitado com corações de pó de canela. Este é um dos doces preferidos do meu father. Por isso ele já aprendeu a confeccioná-lo. Esta responsabilidade torna a minha granny nervosa. Ela fica sempre muito preocupada quando os seus pratos vão ser apreciados por outras pessoas.

“George, os hearts…no good! No good…too grandes. Pequenos, make them small, please…”
O pai, que não tem a paciência da minha grandma, vai desenhando no arroz grandes corações de canela, que na verdade mais parecem balões a rebentar.

“George…small…corações…please!”
O meu daddy, que já tem canela nos bigodes, começa a transpirar. Eu e a minha mãe ficamos as duas ao longe a observar e a rir. Acho aquela cena muito engraçada. A minha granny é que não está a achar graça nenhuma com o trabalho do meu querido pai.
“Sorry” diz o meu pai. Pérdoa-mê vóvó, diz ele abraçando a minha grandma, que já tem um sorriso do tamanho da lua, quando parece uma fatia de melancia.
“Ok…Ok…estás perdoado. Come here. Tenho arroz na panela para rapares.”
Agora sim, o meu pai com bigodes de canela, está completamente feliz.

II
O lanche

Estou a caminho da minha escola. Hoje vou poder provar muita comida saborosa e diferente. Mesmo assim, a minha avó insistiu para que eu levasse sopa quentinha para a escola. A minha grandma faz-me sempre uns lanches muito completos: sopa, sandes, fruta, sobremesa e um sumo. Eu sou a única pessoa naquela turma que tem um lanche assim. Por vezes, sinto-me embaraçada, porque todas as minhas amigas, levam lanches mais simples. Mas o meu tem sempre uma sopa. Para não deixar a minha granny triste, ofereço a sopa à minha amiga chinesa Chen, que adora os caldos da minha
avó. Em troca, ela dá-me os seus biscoitos da sorte. Gosto de abrir os “fortune cookies” para saber o que a sorte me reserva para cada dia.
“Saudade, minha querida neta. Comeste a sopinha toda?”
“Grandma eu come dessas comidas Portuguese que tu faz, mas eu não goste’ to take sopas to school.”
“Eu como querida! Não eu come. E as sopas are very good for you! O que é que a minha linda neta queria? Pão com peanut butter? Nem pensar. Não para a minha beautiful Saudade.
“Please grandma, eu não gosto de levá these soups all the time.”
“Saudade…gosto de levar…please. Tem cuidado com os verbos.”
“Grandma estes verbs são very dificult para mim…”
“Eu só tive a quarta-classe, mas vou ensinar-te os verbos em português, para nunca mais te enganares. Ok?”
“Ok, grandma. Depois me dizes também why you call me Saudade?”
“Digo-te one day. Um dia a avó explica-te why granma calls you, Saudade. Agora vamos aos verbos.”
“No more sopas grandma to escola. Please?”
“Vou pensar. Granma gone think. Se aprenderes os verbos, maybe granma não faz mais sopas?”
“Ok vavó. I love you!”
“Então vamos lá: eu como, tu comes, ele come…”
“Eu come, tu comas…”

III
O mandado

Hoje é Domingo. Ontem a minha avó ensinou-me um pouco mais dos verbos. Hoje, como sempre, ela levantou-se cedo. É o dia da missa. A mãe e o pai gostam muito do Domingo porque sempre podem dormir mais um pouco. Mas nunca perdem a missa. Vamos sempre juntos à igreja portuguesa. Eu não entendo muito o que o senhor padre diz, mas tenho a certeza que são coisas muito importantes, pois a minha granny fica espetada, que nem um lápis, a escutar com muita atenção o que o senhor padre diz. Não sei como é que ela consegue ficar tanto tempo parada e calada, pois em casa ela nunca descansa. Na igreja, quando a avó faz o sinal da cruz, ela fica sempre a olhar para mim, para ver se o faço direitinho, tal qual ela mo ensinou.
Aos Domingos, quando me levanto, o breakfast já está preparado e esperando por mim. Mas a minha granny faz um prato especial só para ela. E, ainda bem que assim é, porque aquela sopa que ela come, é mesmo muito estranha.
Chamam-se sopas de leite. Ela ferve o leite e depois espalha-o sobre o pão, que ela esmagou numa tigela grande, com as mãos. Depois junta açúcar.
“Grandma eu ‘pode’ meter o sugar?”
“Não é ‘pode’ querida. É posso.”
“Ok grandma. Posso meter o sugar?”
“Sim, minha querida Saudade. Vem cá para o colo da tua granma para provares um bocadinho das minhas sopas.”
“NO WAY!… Sorry grandma… No sopas de milk for me.”
Eu não gosto daquele breakfast da minha granny, mas gosto de saber da história das sopas. A minha vavó sabe muitas histórias. Algumas são verdadeiras, como aquela em que ela não podia ler ou brincar depois da escola.
“Mas o que fazias grandma after school?”
“Bom, depois da escola ia trabalhar. Ajudava à tua bisavó na cozinha. Ela sempre tinha coisas para eu fazer: descascar batatas, polvilhar a pá para levar o pão ao forno; procurar lenha para o lume; varrer a cozinha e tratar dos animais.”
“Animals…I love animals grandma…tell me about os teus animals”.
“Bom a avó ia tratar do porco, recolher os ovos e ver se tinham nascidos pintainhos. Dava comida e água ao meu cão, que se chamava Campeão. Apanhava ainda a roupa do fio e flores para enfeitar a casa.”
“Muito work grandma.”
“Sim. Mas todos trabalhavam lá em casa. Tínhamos que nos ajudar uns aos outros. Mas o que a granma mais gostava era de fazer mandados.”
“Manados? What is manados grandma?”
“Mandados querida? Bom como vou explicar? Olha, pergunta à tua mãe.”
“Mommy, mommy… what’s fazer manados?”
“Mais uma palavra portuguesa da tua grandma? Ok, honey… It means to go to the cornerstone to buy something, like milk, sugar or cheese. Um mandado was an errand. It was a job with lots of responsibility. Se te mandassem fazer um mandado, it meant that you were grown and ready to accept responsibilities.”
“Ok mommy posso ir fazer um manado para ti?”
“Mandado, querida. Soon honey. Um dia destes deixo-te ir, está bem?”
“Grandma… mother vai me mandar fazer um manado soon.”
“Que bom, querida... um manado.”
Granny and mommy riem às gargalhadas e abraçam-se.
“Vem cá Saudade, que a granma quer dar-te uma coisa.”
A minha grandma has a ‘piggy-bank’ hiding under her skirt. Num lindo lencinho bordado, ela guarda o seu dinheiro, que depois pendura no cinto da saia. Eu gosto de abrir o lencinho e encontrar notas e moedas que ela vai poupando.
“Grandma, porque guardas o teu money num lencinho?”
“É um velho costume da nossa terra. O money era pouco e poupávamos muito. Por isso tínhamos esta nossa carteira, feita com um lencinho, para guardar o dinheiro necessário para o dia a dia.”
“Eu também want um lencinho like your’s grandma.”

“E olha, aqui tens uma nota grande.”
“Obrigado grandma. Vou meter no meu lencinho, também.”
De repente, a campainha toca. Que bela surpresa…”

IV
Os jogos

“Hi uncle Charles. I am so happy to see you. I have a lencinho, like grandma, and mom will let me do a manado?”
“A what…?”
“Um mandado, Carlos,” explica a minha avó.
“Ok um mandado? That’s wonderful. I always loved mandados.”
“Mãe, lembras-te quando eu e a Maria brigávamos para irmos à loja do senhor Manuel fazer os mandados?”
“Sim filho, lembro-me bem!”
“Uncle, you also did manados?”
“Yes Nancy, and I always got to buy a soft drink, as a reward. It was called a Pirolito.”
“Piro…what? A soft drink with a very funny name.”
“It was the best soft drink ever. Eram deliciosos aqueles pirolitos.”

Eu estou muito feliz com a visita dos meus tios e das minhas primas. Agora compreendo porque a minha avó está a cozinhar tantos pratos diferentes.
“Crianças, it’s a beautiful day. Kids go to the park with uncle.”
“Maria, fala-me português com estas crianças.”
“Sim mãe, desculpa. Tens razão.”
Sei que a minha avó esta a ralhar com a minha mãe por falar em inglês connosco. É sempre assim com a minha avó.

Quando o sol está inteirinho no céu a olhar para mim, eu fico contente. E hoje estou duplamente alegre, pois o sol está gordinho e as minhas primas encontram-se comigo.
O meu tio gosta muito de nos ensinar os jogos infantis que jogava em Portugal quando era criança. Sempre que ele vem à cidade para nos visitar, trás sempre um novo jogo.
“Uncle, que jogo vais ensinar-me hoje?”
“The handkerchief game – o jogo do lencinho.”
“It sounds great, uncle.”
Estão mais crianças no parque. O meu tio convida-as, e de mãos dadas fazemos um círculo. O meu tio fica de fora com o lenço na mão correndo à nossa volta e dizendo:


O lencinho vai na minha mão, - The handkerchief is in my hand
Quando quer cai no chão, – When it wants, it falls
Ele aqui vai, ele aqui fica – Here it goes. Here it stays.
Em casa da tia Anica – At aunt Anica’s house.
Estamos todas muito atentas para ver onde o lenço vai cair.
“Oh my God…let it be me.”
O meu tio continua às voltas com o lencinho na mão. Ele ri, salta e canta. Tenho a certeza que vai deixar cair o lenço ao pé de mim.
“Vamos tio. Let the handkerchief fall.”
“Sejam pacientes, children.”

Preciso estar muito atenta. Se não observar com atenção e apanhar o lenço, vou de castigo prisioneira para dentro do círculo.
“I got it, tio. Apanhei o lenço.”
Durante horas corremos atrás do lenço. Muitas vezes fiquei prisioneira. Depois de tanta brincadeira, o sol torna-se de repente mais pequenino, e o meu estômago, começa a dar horas.
“Vamos embora, children. Time for dinner.”
Adoro o meu tio e os seus jogos do passado. Ao chegarmos a casa, um calor gostoso recebe-nos à porta. A mesa está linda, muito colorida com diferentes pratos, saladas, sobremesas, sumos, vinho e chá. Muitos aromas distintos invadem o meu nariz. Todos falam e riem. Os copos tilintam, enquanto o gramofone da minha grandma toca o seu fado favorito. O meu pai beija a minha mãe, que tem estrelas nos olhos. Grandma parece-me mais rosada e feliz. Tira agora o seu avental. Aproxima-se de mim a sorrir. Abre-me os seus braços e convida-me para entrar neles. Leva-me até à cozinha. E ali estão elas: perfumadas, fumegantes e doiradas. As minhas mállássádás.
“É por isso que te chamo Saudade. Porque you always make me remember what I can’t forget. Tu fazes granny ser fiel às suas raízes. E agora vamos jantar e depois comer as tuas mállássádás.”
“Vavó quero que me chames sempre Saudade.”
Fim

Wednesday, March 19, 2008

SATA com novos aviões canadianos da Bombardier

A transportadora aérea SATA vai renovar a sua frota com novos aviões para a sua rota regional. A compra deverá ser feita à companhia canadiana Bombardier que não confirma a notícia uma vez que não foi ainda assinado qualquer contrato. O o presidente da SATA, na sua recente deslocação a Toronto, visitou as instalações da companhia responsável pela construção dos DASH Q200 e Q400 num investimento de 111,6 milhões de dólares

*Humberta Araújo
Nove Ilhas

A aquisicão das aeronaves já foi anunciada publicamente pelo presidente do governo açoriano após uma reunião com o responsável do Grupo SATA António Meneses, que deverá regressar ao Canadá. Um porta-voz da companhia em Toronto, confirmou ao Nove Ilhas que a companhia está em negociações com os Açores, mas que até ao momento não foi ainda firmado qualquer contrato.
A nova frota de aviões da SATA Air-Açores deverá vir a ser constituída por aparelhos da família DASH, desta fábrica. A nova frota será constituída por duas unidades do modelo DASH Q200, de 37 lugares, e quatro unidades do modelo DASH Q400, de 80 lugares, num investimento global de 111,6 milhões de dólares norte-americanos, cerca de 72 milhões de euros.



Segundo adiantou Carlos César, estes aviões constituem a opção mais vantajosa para a região, na medida em que oferecem soluções tecnológicas mais avançadas, têm mais potência, mais velocidade de ponta e maior capacidade de passageiros e de carga, face às outras alternativas existentes no mercado. Das razões que fundamentam a escolha, destacou as seguintes vantagens dos aviões DASH: o modelo Q200 apresenta inegáveis vantagens para a operação no Corvo, Flores, Graciosa, e S. Jorge, permitindo à SATA melhorar substancialmente o serviço aos passageiros nas rotas que servem estas ilhas, introduzindo níveis de qualidade, rapidez e segurança muito superiores aos actuais, o que possibilitará, inclusive, adicionar maior número de frequências. Quanto ao modelo Q400, é, entre todos os turbo-hélices, o mais avançado tecnologicamente, com maior potência, maior velocidade e mais capacidade de passageiros e de carga, na sua classe. É segundo os reponsáveis um aparelho que possibilita voos de melhor qualidade, em termos de tempo, de insonorização, de redução de vibrações, e em termos de qualidade de serviço e de rapidez no embarque e de desembarque de passageiros.
A renovação da frota far-se-á em 2009 e em 2010, prevendo-se, em primeiro lugar, a entrega dos Q-200, enquanto os novos modelos DASH Q-400 só sairão da fábrica em 2010. Mas o presidente do Governo anunciou outras medidas relacionadas com o transporte aéreo, nomeadamente no que se refere à implementação das novas tarifas promocionais para residentes nos voos inter-ilhas.
À excepção dos meses de Junho, Julho e Agosto e a partir de 30 de Março de 2008, a SATA Air-Açores passará a praticar tarifas promocionais em todas as rotas para residentes, correspondentes a, pelo menos, 10% dos lugares oferecidos. Estas tarifas promocionais terão um desconto de 30%. Para além disso, as Flores e a Graciosa passarão a ter um voo ao domingo durante todo o ano, anunciou ainda Carlos César.
Os emigrantes que anualmente viajam na SATA Internacional para a região poderão igualmente usufruir de certas vantagens com as novas aeronaves, nomeadamente no sector de bagagem.

* GaCS

Friday, February 15, 2008

2008: ano crucial para a SATA

Ao mesmo tempo que o Grupo SATA expande os seus
destinos, inicia também uma “revolução” ao nível de
serviços, por forma a tornar a companhia mais acessível
aos seus utilizadores. O novo presidente desta companhia açoriana, António Gomes de Menezes, esteve recentemente em Toronto para conhecer de perto a realidade da SATA. Nesta cidade, confraternizou com diversos agentes, orgãos de comunicação social e entidades várias ligadas à aviação


Humberta Araujo
haraujo@noveilhas.com


De uma pequena companhia de aviação regional, iniciada há mais de meio século nos Açores, a Sociedade de Transportes Aéreos Açorianos (STAA) descola em 1947 na sua primeira aeronave o “Açor”, para tornar-se numa companhia internacional conhecida em alguns dos mais importantes aeroportos internacionais. Neste seu voo inaugural, do “Aerovacas” na ilha de S. Miguel, a (STAA) estava longe de imaginar quão longe viajaria um dia, numa aventura que acompanha de perto também a saga da emigração dos açorianos.
Muitos anos passados, a SATA viu finalmente os seus horizontes expandirem-se na década de noventa, altura em que inicia a sua operação não regular com voos charter. A companhia arrancou em Dezembro de 1990 com a designação “OceanAir” e em 1991 recebe autorização para uma operação não regular. A SATA Air Açores tornava-se na accionista principal da companhia. Em 1994 a SATA Air Açores tornava-se a única proprietária “OceanAir”. Em 1998 muda de nome para SATA Internacional e inicia a conquista de um vasto número de rotas nacionais e internacionais. Actualmente voa para França, Alemanha, Irlanda, Holanda, Espanha, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. A companhia que suporta ainda uma considerável operação charter, iniciou também o processo de substituição da sua frota a operar inter-ilhas.

Modernização ao serviço dos vários agentes
António Gomes de Menezes acredita que os próximos cinco anos serão cruciais para a rota canadiana. “Em cinco anos a SATA tem condições para crescer e tornar-se numa das principais transportadoras entre o Canadá e os mais importantes aeroportos portugueses, Lisboa, Porto e Faro.” Para tal diz Menezes, “existem segmentos de mercado para serem trabalhados. Portugal apresenta vários destinos turísticos que podem interessar a diferentes tipos de viajantes. (…) A situação ideal passa, segundo o presidente do grupo pelo “crescimento, mas no sentido de tornar a nossa operação cada vez mais regular, mais frequente”.
No que diz respeito a Toronto e Montreal, “pretendemos consolidar uma operação regular. O ideal seria durante todo o ano passar por Montreal e consolidar a de Toronto”. Todavia, António Menezes alerta para o facto de existirem ainda alguns entraves a estes objectivos. “É difícil prever o número exacto de voos. Obviamente, que temos de ir estimulando e reagindo à procura e fazer com que haja cada vez mais notoriedade, não só da marca SATA, mas inclusive dos próprios destinos.”
O entendimento com uma companhia canadiana que facilitasse escoamento está actualmente prejudicado, devido ao estatuto de charter sobre o qual a companhia opera. “Estamos a diligenciar no sentido de modificar o estatuto. Aí sim, será relativamente mais fácil obter um entendimento de modo a que dentro do Canadá outras transportadoras consigam construir com a SATA um entendimento para que qualquer pessoa em qualquer parte do país consiga aceder aos voos da SATA”.
Entre outras estratégias está “obviamente o trabalho ao nível da distribuição. Estamos muito satisfeitos com o nosso modelo de negócios em que operamos e que privilegia o papel do ‘distribuidor/tour-operator/ travel agent’. Mas queremos testar os sistemas de reservas para que a automatização seja uma ferramenta de trabalho ao serviço dos ‘tour operators e travel agents’ para que os sistemas de reservas e acesso a disponibilidade de lugares sejam de facto assegurados de forma mais sustentada”.
Actualmente, assegurou ao Correio Canadiano/Nove Ilhas o presidente da SATA, “estamos a trabalhar de uma forma bastante activa neste sentido. “Todavia, há decisões que passam por outras instituições. Mas acreditamos que durante este ano de 2008 teremos algumas novidades nesta matéria”.
A comunhão entre a SATA e outros organismos relacionados com o desenvolvimento económico e turístico das ilhas é crucial. “Entendo que a SATA deve estar ao serviço do desenvolvimento económico dos Açores e, por conseguinte, deve estar ao serviço do desenvolvimento do turismo, pois o mesmo condicionará a ‘performance’ económica da região. A SATA tem que estar na linha da frente e, é isso exactamente que ela tem feito ao abrir portas para o mercado Açores que continua a crescer no sector turístico. A oferta de camas está a aumentar. A proposta de valor do destino Açores tem vindo a enriquecer em inúmeras áreas. Obviamente que a base estará sempre entre o mar e a natureza, mas dentro deste figurino aspectos como o golfe, congressos e cruzeiros serão interessantes. Queremos igualmente trabalhar no sentido de aumentarmos a nossa capacidade relacionada com o ‘airlift’ que providenciamos”.




Para além de encontros com agentes de viagens, operadores turísticos e comunicação social, Gomes de Menezes visitou a fábrica de aeronaves ‘Bombardier’ uma das companhias que poderão vir a substituir os actuais aviões da frota inter-ilhas.

No interior do seio sagrado


Mariana vive no interior da ilha. A décima. Só se desloca à cidade pelas festas do Senhor Santo Cristo. Os cinco filhos que teve apenas conheceram a parteira. Médico só na vila e mesmo assim só em tempo de emergências, que felizmente não têm batido à porta. Achaques e moléstias são curadas com mezinhas e remédios caseiros. Nada de mais para sobressaltar a família. Assim se vive numa calma desconcertada, pois paira sobre a cabeça de Mariana o medo daquele peito. Que Deus a proteja da sina da mãe, da avó e de duas tias. Porém, no silêncio das palavras mudas, Mariana ouve o trepar calado do sangue a alimentar a herança. Que nada se veja e que nada se diga daquele mal desentendido pelas gentes, que se acomoda no seu corpo, como a água da chuva que o pasto sorve. Mariana esconde o que ferozmente lhe consome o peito. Não vá a vizinha, a rua, a freguesia deitar-lhe aquele olhar , o mesmo a que se acostumou a reconhecer nas caras das gentes da rua, depositado depois no seu corpo, quando de mãos dadas com a mãe acompanhou o féretro da avó e, depois já mulher, o de sua mãe.
Na terra do analfabetismo e do esquecimento, o tumor galgava o corpo da mulher, semeando a ignomínia como o mar em tempo de tempestade. Na terra, a doença “salve-seja” mais do que a certeza da dor e da morte, trazia consigo o xaile do preconceito. O peito é agora uma chaga rebentada. Já não pode negar, nem a si nem a ninguém, que aquele corpo já não lhe pertence, tomado que foi pela peçonha. É tarde demais. Tarde demais para tudo. A pobreza, a ignorância, o medo, a distância fizeram um pacto com a “salve-seja” e nada mais lhe resta do que dizer adeus aos poucos. Adeus aos horizontes azuis, ao nascer do sol, aos filhos e ao marido, ao álbum das fotografias – poucas – pois naquele tempo eram poucos os retratos.
Viveu o medo de deixar as mãos e os dedos percorrer o peito à procura do “caroço". O medo de descobrir qualquer coisa de “ruím” e fechar-se no anonimato de um incómodo, sem um abraço de esperança. Lembra as mulheres que o tumor consumiu e que ela herdou. Lembra o sangue feminino que corre no seu corpo e no seu nome. Vive o preconceito e o silêncio.
Assim morreram muitas mães e avós. Muitas amigas e filhas. Já não é preciso o silêncio. A solidariedade e a ciência já conquistaram os muros do medo. Mesmo assim, para muitas mulheres falta ainda a informação e os meios para que de uma vez por todas conquistem com orgulho o seio feminino.

Wednesday, February 06, 2008

Novo presidente do grupo Sata em Toronto

"Conhecer de perto realidade da SATA"

O novo presidente do conselho de administração do grupo Sata vai estar em Toronto. António Gomes de Menezes substui no cargo o economista Manuel António Cansado, que deixou a presidência alegando o desejo de retomar a sua carreira profissional. O novo presidente de 34 anos é doutorado em Economia e desde 2006, que desempenha funções de vogal no executivo do conselho de administração da Agência para a Promoção do Investimento dos Açores (APIA) e da ASTA-Atlântida - Sociedade de Turismo e Animação. A companhia sob a administração de Manuel António Cansado, que tomou posse como presidente do conselho de administração em Maio de 1997, conseguiu passar dos 240 mil passageiros para cerca de 1,3 milhões em parte resultado da internacionalização da companhia. Em declarações ao CC/NI o novo presidente da SATA afirmou que relativamente a esta sua viagem a Toronto ela tem como objectivo “conhecer in loco a realidade da SATA, pois a América do Norte é um mercado extremamente importante para o futuro desenvolvimento do grupo”. Nesta perspectiva, os contactos no Canadá servirão “para tomar o pulso da situação e conhecer de perto, em diálogo com todos envolvidos nesta exploração” o mercado e serviços. O futuro da SATA internacional é crucial “numa perspectiva de futuro considerando que o grupo na sua estratégia de expansão pretende melhorar em todos os aspectos o trabalho da transportadora”.
A presença da SATA em Toronto remonta a 1986 ano em que a companhia iniciou a sua presença com escritórios nesta cidade. A SATA num esforço interno de modernização nos Açores, estuda agora a compra de novas aeronaves para os transportes inter-ilhas e já anunciou tarifas mais baixas no arquipélago durante nove meses por ano. O anúncio foi feito recentemente pelo secretário regional da Economia Duarte Ponte. “O governo em concertação com a transportadora aérea regional, espera poder publicar, ainda em Fevereiro ou então em Março, um tarifário promocional, naturalmente com restrições”. Este tarifário terá efeitos positivos também para os emigrantes que se desloquem às ilhas. Recorde-se ainda que recentemente foram anunciadas baixas para as tarifas dos emigrantes.
Humberta Araújo

RIAC - Ligar Toronto aos Açores

Os açorianos a residir na província do Ontário vão dispor, a partir deste ano, de um serviço de atendimento, localizado nas novas instalações da Casa dos Açores do Ontário. Vasco Cordeiro, secretário regional da presidência, explica o porquê desta decisão do governo dos Açores.

"RIAC vai também colmatar a falta de um funcionário para CAO"
Carlos Botelho. presidente Casa dos Açores

Humberta Araújo
haraujo@noveilhas.com

Os actuais 26 postos da Rede Integrada de Atendimento ao Cidadão que se encontram a funcionar nos Açores, asseguraram 75 mil atendimentos nos primeiros nove meses deste ano, registando um acréscimo de procura de 109%, face ao mesmo período de 2006. Estes dados foram fornecidos pelo vice-presidente do governo, Sérgio Ávila, na passada quinta-feira na inauguração do RIAC, na Madalena do Pico. “O projecto já comum a todos os açorianos, é uma aposta ganha e uma mais-valia no dia-a-dia” da população dos Açores, afirmou Sérgio Ávila, indicando que, devido ao seu sucesso, serve de referência ao processo de lançamento, no Continente, da segunda geração das “Lojas do Cidadão. Quando começaram a funcionar, os postos RIAC eram utilizados, sobretudo, para pagamentos de despesas periódicas – água, luz, telemóveis, telefones e TV Cabo – mas hoje prestam uma variedade de serviços que vão da emissão do Cartão de Cidadão à apresentação de reclamações ou candidaturas a sistemas de incentivos financeiros, explicou Sérgio Ávila. Muitos destes serviços podem ser agora requeridos pelos açorianos a viver em Toronto. Circulação rodoviária, obrigações relativas ao sector da saúde, tais como cartão de utente, reembolso de despesas para aposentados da ADSE, adesão ao protocolo dos aposentados, documentos e licenças, entre eles passaportes, certificados do registo criminal, certidões, registo civil, comercial e predial e caderneta predial urbana são só algumas das responsabilidades do RIAC, que se podem estender ao cartão do cadastro comercial, candidaturas a apoios, escoamento e promoção de produtos açorianos ou pedidos de apoio para habitação. Para os jovens facilita a inscrição no Programa de Ocupação dos Tempos Livres e de Mobilidade e Intercâmbio Juvenil. Disponibiliza ainda serviços camarários e da Direcção-Geral dos Impostos, entre outros. Para Carlos Botelho, presidente da Casa dos Açores, o "RIAC vai do mesmo modo colmatar a falta de um funcionário a tempo inteiro para o clube, que prestará serviços de secretariado à direcção da Casa dos Açores, apoio aos associados, organização interna de documentos oficiais do clube," entre outros.

"Um passo importante na ligação afectiva com os açorianos"
Vasco Cordeiro



Nove Ilhas - Seguindo o sucesso dos RIAC nos Açores, o governo dos Açores em recente reunião decidiu que os açorianos radicados em Toronto iriam dispor de postos de atendimento da RIAC (Agência para a Modernização e Qualidade do Serviço ao Cidadão). Na sua essência, qual a filosofia subjacente ao alargamento do RIAC às comunidades?
Vasco Cordeiro - O Governo pretende disponibilizar aos açorianos emigrados na área de Toronto, o conjunto de serviços que são acessíveis através da Rede Integrada de Apoio ao Cidadão. Trata-se assim, não apenas de facilitar o acesso desses Açorianos à realidade da administração regional, facilitando esse contacto, mas também uma forma de reforçar a ligação da nossa comunidade aos Açores.
NI- No que diz respeito a Toronto e, na sequência de declarações prestadas pelo presidente do governo aquando da inauguração das instalações da Casa dos Açores do Ontário, estes serviços funcionariam nas novas instalações. Para quando o início dos mesmos e que passos faltam dar?
VC - Neste momento o processo está a ser ultimado, pelo que acreditamos ainda ser possível este ano a entrada em funcionamento desse serviço.
NI - O RIAC irá facilitar serviços da Administração Pública Regional, por exemplo, em questões relacionadas com propriedades, entre outros. Especificamente que tipo de serviços poderá a Agência oferecer aos emigrantes?
VC - Essencialmente, todos os serviços que estão disponíveis nesses Postos, nomeadamente, na área de relacionamento com a administração regional e com a administração autárquica. Aqui incluem-se licenças de vária ordem, certidões diversas e alvarás emitidos quer pelo Governo Regional, quer pelas Câmaras Municipais.
NI - Estes serviços podem estender-se também a emigrantes de outras regiões portuguesas?
VC - Nesta fase, e como atrás se explicou, estes serviços estão direccionados para os actos da Administração Regional Autónoma dos Açores e das Câmaras Municipais dos Açores. Pode, assim, qualquer cidadão que necessite de obter actos ou dados dessas instituições recorrer ao Posto RIAC.
NI - Ao nível da ligação afectiva dos açorianos com a região, esta é também uma aposta no prolongamento de laços facilitando ao mesmo tempo uma via de relacionamento com as novas gerações?
VC - Este é, efectivamente, um dos objectivos e das vantagens desta decisão do Governo Regional. Muito embora a actuação do Governo Regional de fomentar a ligação dos Açorianos emigrados à nossa Região não se esgote nessa medida, ela constitui um passo importante nesse sentido.

Monday, January 28, 2008

O LUGAR DO CARANGUEJO

O Caranguejo recebia a tarde dourada que se estendia num alvoroço fora do comum. Havia um cheiro a descoberta e um ar de maresia próprios do lugar. Em Rabo de Peixe, o meio dia adivinhava-se já nas sombras que o casario desenhava. Descia uma vez mais à Cova da Moura. Uma visita quase sempre “desconcertante” pelas ruelas que se perdem no arrendado luxuriante de pés descalços, janelas abertas, mulheres e aventais, remos e escamas, ranhos e gargalhadas, como um palco desvendado pelo pano que se abre para mostrar o bater do coração de uma história. Ali estava o Caranguejo, como nunca o vira antes: colorido, barulhento, aromatizado, abarrotando de vida. Um arraial de tonalidades, de cheiros, gentes e cores.
O centro do bairro, delimitado em forma de quadrado, redesenhava-se com fios e canas ostentando a roupa lavada num emaranhado de feitios, cores e gostos. As vagas do vento entravam no ventre do Caranguejo transportando aqueles cheiros de musgo e lapa colada na pedra, enquanto chicoteavam de leve a roupa no estendal. Um acampamento em tempo de romaria abençoado pelo bailado de trapos e aromatizado pelos fumos que esvoaçam das panelas onde se cozinha ao ar livre os intestinos do bovino para a dobrada do jantar.
Aqui e ali cabelos flutuam fora dos lenços multicoloridos, enquanto as mulheres conversam nos cantos ou em pequenos grupos junto às suas panelas. Os filhos descalços e as filhas amadurecendo os corpos ostentam peles morenas e salgadas. Os mais pequenos sentados aos colos das avós na soleira da porta: um corisco e um excomungado…as pragas do lugar atiradas aos ventos que as vão vomitar nas fundas do rochedo da costa negra, tormentos do olhar de quem tem nas águas o sofrido gosto da alegria. Assim vi o Caranguejo naquela tarde bela de encantos. Sorvendo o cheiro do peixe seco nas fendas da rocha, embarcando nos aromas da dobrada cozida ao relento, dançando ao sabor do vento entre a roupa que as Américas já não vomitam, celebro a exclusividade do espaço, lamentando a contínua leveza dos seres que ali exaltam os méritos dos dias e das noites na pacatez dolente das marés ou no alvoroço dos mares tormentosos. Assim, dia após dia, multiplico a minha solenidade e perpetuo uma humanidade sem grandes promessas.

Que português vamos escrever?

Um pouco por toda a parte se fala do Acordo Ortográfico. Os portugueses espalhados pelas comunidades, de uma forma ou de outra, já ouviram falar nele. Talvez já saibam o que vai mudar na escrita da língua portuguesa. Talvez nem tanto. Nesta edição vamos fazer um pouco desta história e convidar alguns nomes importantes das artes, letras e ensino em Portugal, Estados Unidos e Canadá para nos darem uma imagem geral do que este acordo é, e o que significa

HUMBERTA ARAUJO

Relativamente às últimas sobre este acordo em Portugal, a aprovação do Protocolo Modificativo do Acordo foi adiado, ficando agendado agora para este ano – deveria ter sido no último Conselho de Ministros realizado no dia 27 de Dezembro, como anunciara o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado. O acordo geral foi alcançado em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994 mas não foi porque só três países – Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Princípe – deram o sim ao acordo no geral e a dois protocolos modificativos que introduziram outras mudanças. O segundo destes protocolos, aprovado em 2004, ainda não contou com a ratificação de Portugal. É este que precisa ainda de ir a conselho de mi-nistros para validação e depois à Assembleia da República.
Este acordo geral não é o primeiro em Portugal e, dadas as muitas adaptacões necessárias, a ministra da Cultura já pediu 10 anos para a sua entrada em vigor. A nossa língua já passou por acordos em 1911, 1931 e ajustes de 1973. Reformas ortográficas não têm faltado na língua portuguesa. A última ocorreu nos anos 70 do século passado, quando no Brasil, em Portugal e nos territórios portugueses quase se acabou com o acento grave, e no Brasil com o acento diferencial.
Este é o primeiro acordo do século XXI e foi alcançado em 1991 entre os sete países de língua oficial portuguesa para ditar novas regras de como escrever palavras. Este acordo não muda a pronúncia de qualquer palavra. Isso é verdade para qualquer reforma ortográfica e não cria nem “destroi” palavras. A língua portuguesa é falada em mais de um país e de um continente. Por isso tem diferenças. Algumas destas variantes ainda não se encontram totalmente formadas, como acontece em Moçambique. As variedades do português, apresentam regras próprias que, nalguns casos, poderão estabelecer regras diferentes ou mesmo contrárias. E, segundo os especialistas, este acordo “não interfere com a coexistência ou com as regras de normas linguísticas regionais”. Actualmente, a língua portuguesa tem duas normas ortográficas: a usada no Brasil e a dos restantes países de língua portuguesa. Da aplicação das duas normas resultam muitas diferenças na forma de escrever. Reformas introduzidas no Brasil por uma lei de 1971 reduziram bastante as diferenças, mas persistem importantes divergências. Com este acordo pretende-se escrever as palavras nos países de língua portuguesa com uma única norma.

Mudanças em Portugal, países africanos de língua oficial portuguesa e Timor

“Eliminação de cês e pês não pronunciados em palavras como director, acção, protecção, baptismo, adoptar e excepção, as quais passam a escrever-se diretor, ação, proteção, batismo, adotar e exceção.
Principais alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico no Brasil
“Desaparece o trema. Em Portugal escreve-se aguentar no Brasil agüentar. O trema é colocado sobre o "u" para indicar que esta letra é pronunciada. Em Portugal o trema não se usa desde 1945.
O ditongo ei em palavras graves nunca é acentuado graficamente. Deixa-se de usar acento em palavras como assembléia e idéia, que actualmente não levam acento em Portugal”.
Alterações para todos os países de língua portuguesa
“É simplificado e reduzido o emprego do hífen. O ditongo oi em palavras graves ou paroxítonas não leva acento. Escreveremos boia e heroico em vez de bóia e heróico”.

Línguas mudam ortografia
Não tem sido só o português a mudar a ortografia: o espanhol (em 1815 para todos os países de língua espanhola); O alemão; o holandês por volta de 1900 sofreu uma alteração radical; a forma de escrever o russo também mudou depois da revolução comunista. Após de 1949 as autoridades chinesas impuseram a simplificação de caracteres e no Japão depois da II Guerra Mundial o governo mandou que se eliminasse milhares de caracteres ideográficos, depois substituídos por caracteres fonéticos. A ortografia do inglês quase não foi alterada. Por isso é que a sua escrita tem muito pouco a ver com a pronúncia. Reformar seria muito difícil pois agora precisam de dois alfabetos: um para escrever as palavras e outro para saber a sua pronúncia. No nosso país, o fim de consoantes mudas e outras modificações radicais como o fim dos agás iniciais já poderiam ser hoje uma a realidade se tivesse ido para a frente um reforma proposta em 1878. Sobre tal deixamos como curiosidade uma passagem da Academia Real das Ciências de 26 de Dezembro de 1878 assinada no Porto por "Adriano de Abreu Cardoso Machado, Prezidente; Conde de Samodães; Manuel Felippe Coelho; Agostinho da Silva Vieira e Jozé Barbóza Leão.
“O parecer de que ésta reprezentação vai acompanhada, contem um sistema de ortografia e um método de o pôr em prática, os quais avaliareis como merecêrem. Os abaixo assinados apenas esprímem o dezejo e a esperança de que julgueis dever adòtal-os.”
Portugal prepara-se agora para exigir das editoras reedições de obras literárias para albergar as alterações do acordo e o Ministério da Educação do Brasil prepara a próxima licitação dos livros didáticos, pedindo a nova ortografia. "Esse edital para os livros que serão usados em 2009, deve ser fechado com as novas regras", afirmou a propósito o assessor especial do Ministério da Educação, Carlos Alberto Xavier.

Movimento contra o acordo em Portugal
Em 1986 um movimento de intelectuais contra o acordo surgiu em Portugal, encabeçado pelo escritor Vasco Graça Moura. Também o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares (MST) foi outro nome crítico deste acordo tendo afirmado no Expresso que “há mais de 10 anos que vivemos com esta espada suspensa sobre a cabeça; quando não têm mais nada com que se entreter para exibir a sua importância, os senhores da Academia das Ciências e os ministros dos Estrangeiros gostam de nos ameaçar com o acordo ortográfico, cujo objectivo único é por-nos a escrever como os brasileiros assim lhes facilitando a sua penetração e influência nos países de expressão portuguesa. Como disse Vasco Graça Moura, o acordo é um ‘diktat’ neo-colonial em que o mais forte (Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal)”. De salientar que MST recusou modificar a grafia de um dos seus livros editados no Brasil. “Perdoe-me a imodéstia, mas orgulho-me de ter feito bem mais pela nossa língua no Brasil o que todos esses que se dispõem a vendê-la como coisa velha e descartável” escreveu ainda MST. Vasco Graça Moura, a propósito do acordo, questionou já a ministra da Educação sobre as razões que a levou “a aceitar um conjunto de enormidades deste tipo e a desatender as muitas objecções que, sem dúvida, lhe chegaram da parte de inúmeros professores? (…) Não se vê que a avaliação dos professores, face ao novo estatuto, se vai tornar absolutamente impraticável nesta matéria? Nem que o ensino se vai degradar ainda mais? Será isto uma política da Educação? Será assim que a cooperação com os outros países de língua portuguesa vai ser mais eficaz, no tocante ao ensino e promoção da língua comum?”

Daniel de Sá
escritor - Açores


“Não gosto de acordos destes. A Língua nunca foi uma questão de acordo, acontecia naturalmente. As pessoas cultas criavam palavras novas do Latim ou do Grego, os marinheiros traziam-nas com o "ananás" ou com o "chá" de tupis-guaranis ou de chineses, dava-lhe o povo um jeito aqui outro acolá, fixavam-lhe as mudanças os gramáticos, ratificavam-nas os escritores. Veio a República e entendeu que podia mandar em tudo, até nela, na Língua. Isso foi em 1911, mas ficou o costume. (…) Estamos, sem dúvida a perder um pouco da nossa nacionalidade, história e individualidade. Os países que mantiveram a nossa Língua são uma amálgama preciosa de culturas, têm o seu percurso, o "sotaque" da escrita é mais facilmente compreensível do que o da fala oral. (…)
Relativamente ao ensino da nossa língua na diáspora devemos primeiro, talvez, saber a quem iremos ensinar. Nenhuma norma fará do Português de Portugal o padrão imutável. (…)
Quanto à adaptacão da produção literária com custos adicionais para as editoras isso é o disparate. Quem é da minha idade leu desde criança as histórias em quadradinhos que vinham do Brasil, ou até mesmo a revista "Cruzeiro". E nem por isso deixámos de aprender correctamente a nossa Língua. (…) Quanto à liberdade que resta ao criador em decidir manter o "seu velho" português, digo que Fernando Pessoa manteve quanta e enquanto quis, e não deixou de ser o maior poeta português do século XX. Pessoalmente acho uma incongruência a "obrigatoriedade de mudar" logo que o acordo se torne lei. Uma arbitrariedade de um governo cujo chefe é capaz de dizer uma aberração destas:"eu sou daqueles que acredito"... Pois eu não sou daqueles que acreditam que a democracia da Língua seja isto."

Onésimo Teotónio de Almeida
professor/escritor - EUA


"Acho que sim que se justifica este acordo. Não há razão para haver duas grafias da língua. Existem duas grafias em inglês, a inglesa e a americana, mas as diferenças são mínimas. Não têm os problemas de acentos. Há muito que era preciso aproximarmos mais as grafias das duas versões do português. O Brasil não se deve importar. Quem se deve importar é Portugal. A verdade é que nunca estamos preparados para nada. Portugal não estava preparado para a democracia e hoje tem-na. (…) Não estamos a perder nacionalidade, história e individualidade. Daqui a uns anos ninguém mais de se lembrará de como em 2007 se escrevia certas palavras. Alguém sente que perdeu a identidade portuguesa porque já não escrevemos "pharmácia" ou 'prompto" ou Ignácio? Sobre o ensino nas comunidades a nova ortografia aprende-se num instante. No passado já houve alterações ortográficas. Quem tiver dúvidas tente ler "Os Lusíadas" no original. (…) Quem quiser teimar a escrever à antiga, que o faça. É como a missa em latim. Assassinar a herança literária com as modificações? Se isso fosse verdade então muitos assassinatos foram cometidos ao longo da história com as sucessivas alterações da ortografia desde as cantigas de amigo. Quanto à liberdade deixada ao criador acho que mais importante do que acertar as agulhas numa palavra ou noutra agora alterada seria importante as pessoas deixarem de cometer erros. Os criadores portugueses não deixarão de ser menos criadores por se lhe alterarem uma dúzia e meia de regras ortográficas. Pessoalmente não vejo por que razão não haveria de adaptar as mudanças. Primeiro porque é uma lei. Segundo porque não vejo razão para me tornar objector de consciência por causa disso. Terceiro porque acho que a grafia da língua não constitui de modo nenhum um elemento fundamental da identidade seja de quem for.(…)"

Eduardo Bettencourt Pinto
poeta-Canadá


“Não sei até que ponto os países lusófonos estão preparados para um acordo destes. A questão arrasta-se há anos e até agora, creio, não se tem visto qualquer resultado. Cada país tem as suas particularidades linguísticas, e há sempre a tendência de os mesmos seguirem os seus padrões culturais. Cabe aos responsáveis das Pastas da Educação dos países membros de seguirem as normas acordadas e impô-las nos seus circuitos educativos. Quanto à possibilidade desta acordo afectar a produção literária acho que ele exigirá certamente um período de adaptação por parte de todos aqueles que usam a língua como veículo comunicativo e de arte. Como poeta a viver no Canadá a necessidade de adaptação pessoal e a posição do governo de exigir das editoras revisão de obras já editadas, não sei até que ponto será financeiramente exequível uma revisão dessas. As editoras portuguesas, por exemplo, atravessam neste momento uma crise grave. Embarcar num projecto de revisão de livros já publicados não só me parece excessivo e desnecessário, como também inviável economicamente. O mercado de livros, como se sabe, é pobre. Lê-se muito pouco.
A nível pessoal farei todos os possíveis para estar actualizado, desde que haja uma norma estabelecida e seguida oficialmente."


Luiz António de Assis Brasil
escritor - Brasil


"Este acordo justifica-se, e muito. É o momento de unificarmos a grafia da língua portuguesa. Chega de passar vergonha na ONU, quando perguntam a nossos diplomatas, ironicamente, qual o português que está valendo. Vamos pensar modernamente, como fez a Espanha: a grafia da língua espanhola é uma só, no mundo todo. Os sotaque sim, esses variam, e são ricos e instigantes. Neste momento estamos preparadíssimos para olhar as modificações ortográficas; ademais, o acordo alterará apenas 0,48% de nossas palavras. Em Portugal, terão de alterar 1,56%. Outra coisa: a grafia das palavras, um acento aqui, outro acolá, isso nada tem a ver com a identidade cultural de um povo. Quanto à possibilidade de perdermos parte da nossa nacionalidade, história e individualidade, nem um pouco: não perderemos rigorosamente nada. (…) Quanto à edição e adaptacão de obras, as editoras, muito ao contrário do que pensam, aumentarão seus lucros, pois um livro impresso aqui poderá circular plenamente em Portugal, e vice-versa. Para publicar seus livros, não mudará nada. Ao criador resta-lhe toda liberdade. Criar algo, do ponto de vista literário, tem a ver com a inovação e ousadia das idéias, e não com a grafia das palavras com que essas idéias ousadas e inovadoras são transmitidas. Pessoalmente encaro este acordo oportuno, decente, recomendável. Sou um dos maiores entusiastas brasileiros do acordo, acolhendo-o como uma expressão de inteligência. (…)"

António M. Machado Pires
ex-reitor UA - especialista estudos nemesianos


"Um acordo ortográfico só se justifica se tiver condições para ser posto em prática. Seria benéfico para uma acção unificada da Língua Portuguesa no mundo, pelo número de falantes e pelo mercado de livros. Mas as diferenças culturais e identitárias entre Portugal e o Brasil, principalmente, o peso da “tradição” escrita e a indiferença do cidadão comum apontam para mais um esforço vão. Uma língua é uma realidade viva que não se controla por convenções impostas, sobretudo quando se apontam modificações e alterações como as que estão em causa. Não estamos preparados para pensar em “marcas culturais”, pois hoje a cultura é um conceito muito vago! (…)A língua faz parte do património multi-secular. A melhor forma de defendê-la é ensiná-la bem, escrever (e ler autores portugueses). Quando falo no ensino, refiro-me não só do português em Portugal como no estrangeiro (leitorados). A questão da língua deve ser vista como um todo. Cada vez que descuidamos o ensino da Língua e da História de Portugal estamos a perder identidade. E ninguém nos vai valorizar e defender se não formos nós próprios. (…) A atenção dada ao ensino do Português nas zonas que se costumam designar por diáspora deve ser grande. É uma reserva do Português que garante a continuidade da Cultura Portuguesa no mundo. Merece a maior atenção dos políticos e da política portuguesa. Quem semeia a língua semeia a “alma”; quem fala uma determinada língua impõe o mundo que lhe está por detrás. (…) Na era pós-acordo (se chegar) ter-se-á de publicar (e ensinar!) conforme o acordo. Mas as edições anteriores valem o que valem. As alterações são respeitantes a normas mínimas de ortografia comum. A expressividade de cada “feição” do Português mantém-se. O que nos parece é que as diferenças “de fundo” entre o Português de Portugal e o Português do Brasil são tais que não é possível, no mundo global de hoje, impor normas. De resto acordos ortográficos já não estão na moda. As tentativas anteriores (Portugal / Brasil) são história. Hoje a realidade é escrever-se como cada comunidade praticar a escrita. A maioria dos Portugueses (sobretudo os mais velhos!) vai continuar a escrever como escrevia e o Brasil ainda o fará com mais indiferença. Poderá haver (em Portugal) uma prática nos documentos oficiais e outra na pena dos cidadãos comuns. O que será desastroso e ridículo. (…) As pessoas vão escrever como escreviam; Passa a haver dois usos do Português, o que será ridículo e prejudicial (…) Porque não aceitar que há duas práticas de Língua Portuguesa no mundo (se pensarmos mormente nos dois universos em confronto, Portugal e Brasil) e continuar a fortalecer o ensino do Português (tradicional) de Portugal, a ver no que dá? São, afinal, universos culturais afins, mas diversos, que a língua traduz. Não é um documento normativo importante que subjuga uma prática viva comum. É tarde. E talvez seja melhor assim. (…)"

Lélia Nunes - investigadora
Santa Catarina – Brasil


"Assinado em 1990, engavetado por 17 anos está de volta a discussão sobre o acordo ortográfico. (...) Aliás, o próprio Ministério da Educação do Brasil chegou a anunciar que em 2008 o propalado acordo passa a vigorar. Ainda bem que não passou de mais um anúncio e que não vai a lugar nenhum. (…) Não é inovador e muito menos unifica escrita de fato. Mexe em acentuação ortográfica como o acento diferencial e o trema, elimina consoante como se afeto ou afecto fosse diferente nas duas margens só porque um escreve com c e outro sem c. Se a justificativa da sua necessidade é o nosso maior entendimento mútuo, então encaro com muito ceticismo a realização de um acordo ortográfico nestes termos por ser muito mais político do que uma real mudança da representação simbólica do que falamos – a dinamicidade da linguagem. Estarmos preparados é diferente de aceitar ou concordar com o que se pretende como Reforma Ortográfica. A preparação passa por um grande dispêndio econômico e desgate político interno. Não podemos esquecer que é algo imposto, vem de cima pra baixo. (…) Antes de tudo vai depender muito de vontade política, de competência para bancar o acordo e capacidade orçamentária para realizá-lo. (…) Isto são apenas convenções e com elas não perdemos identidade cultural. (…) O português falado e escrito no Brasil continuará com sua musicalidade brejeira, com a doçura que lhe é peculiar. (…) A língua é nosso patrimônio cultural. A nossa identidade está na alegria contagiante, sensual, cheia de volteios vibrantes, carinhosos que colorem, amorenam e dão graça à escrita brasileira com ou sem os "Cês. Por outro lado, a escrita cheia de letras mudas – afecto, facto, contacto – não impediu o português de Fernando Pessoa de ser amado ou José Saramago de ser best-seller no Brasil.
No Brasil, a discussão ainda vai pelos labirintos acadêmicos. (…) No que diz respeito ao trabalho das editoras, a curto prazo vão perder com a implantação das normas do acordo pois terão que adequar à nova grafia desde os simples catálogos à seu banco de dados. Mas, as editoras brasileiras, num futuro próximo, vão lucrar e muito. Pois, o livro aqui produzido poderá ser circular em Portugal e da mesma forma os livros portugueses. (…) Acredito que uma herança literária jamais será “assassinada” devido a uma alteração ortográfica. Ela é e será sempre o patrimônio cultural de um povo e, o criador tem sempre liberdade: o seu livre pensar e criar. (…)Todavia, encaro este acordo com ceticismo. Reafirmo: não se trata de uma verdadeira reforma ortográfica na acepção da palavra. Esta já nasceu com falhas de percurso histórico e político. O acordo foi ratificado por apenas três países membros da CPLP, entre estes o Brasil, em 2004, E Portugal não era um deles. Como pode se falar em acordo sem Portugal? (...) É esperar pra ver, enquanto isso vamos alçando vôos por mares de afectos."

Urbano Bettencourt
docente UA - escritor


"Se pensarmos em termos multi-laterais, é claro que não precisamos de qualquer acordo para nos entendermos uns aos outros. Passei a adolescência a ler escritores brasileiros sem qualquer adaptação ortográfica e não foi por isso que deixei de entendê-los e de amá-los, nem isso afectou a minha escrita europeia.
Em termos internos, a supressão de consoantes mudas simplifica a ortografia e a aprendizagem? Eles dizem que sim, embora quem, como eu, contacta diariamente com a expressão escrita verifica que os maiores problemas até não passam por aí, pela falta de um “c” que se ausentou para parte incerta.
A ortografia é apenas a (possível) representação do que falamos, mais próxima da etimologia, mais próxima da fonética, conforme o critério adoptado, o que quer dizer que há aqui uma forte componente de convencionalismo. Sem isto, sem o trabalho de sistematização ou normalização, ainda estaríamos hoje a ver o 'çapateiro de Gil Vicente que vay à barca do parayso pedir ao barqueyro que o leve nella'.
Perdeu-se alguma coisa da nossa individualidade com a passagem ao que temos hoje? Creio que não. Com o acordo ortográfico eu continuarei a cantar “adoremos com afetos de alma o Espírito Santo Divino” com a mesma emoção com que hoje o faço no terço cantado ao Espírito Santo. Bem sei que vou tropeçar em coisas esquisitas como “creem” e vou ter de crer que aquilo é mesmo o verbo “crer” no presente do indicativo, 3.ª pessoa do plural (coisa idêntica para “descreem, preveem, e por aí adiante). A questão do ensino na diáspora já suscita questões de outra natureza. Terá o governo dinheiro e sobretudo vontade política e capacidade para apoiar a nova situação resultante do acordo? Aqui, vocês estarão mais aptos a responder, pela experiência do passado e do presente. Mas neste domínio do ensino do português no estrangeiro (e no país), o verdadeiro monstro é uma coisa que se encontra em cozedura nos gabinetes do Ministério e que se chama TLEBS, ou seja, a nova terminologia línguística para o ensino básico e secundário.
Parece que devido à nossa proverbial lentidão e inépcia, vamos ter dez anos para nos adaptarmos à nova grafia, segundo terá dito a senhora Ministra da Cultura de Portugal continental. Não sei se nessa altura ainda andarei por cá. Entretanto, hei-de (ou hei de ) ir escrevendo sem preocupações de maior.(...)"

Graça Castanho, ph.d
ex- cons. ensino português nos EUA/Bermuda


"Um acordo que vise a uniformização de critérios linguísticos a usar pelos falantes dos países de língua portuguesa é uma medida urgente e necessária. (…) O acordo justifica-se porquanto é necessário chegar a um entendimento alargado e consensual entre as partes interessadas sobre as regras básicas comuns de escrita. Este passo, para além de corresponsabilizar todos os envolvidos nesta questão, constituirá um travão à caminhada individual que cada país tem traçado para a língua portuguesa no seu espaço geográfico. Neste momento, temos o Brasil a reclamar uma língua própria, Moçambique e Angola também já questionam se a língua que usam é Português Continental ou se não será outro idioma. Do conjunto de países de língua portuguesa, Portugal é, sem dúvida, aquele que terá mais dificuldade em aceitar o acordo ortográfico. Há muita resistência à mudança e à consequente perda de prestígio e controle sobre os destinos da língua. (…) A nossa insignificância numérica (somos 10 milhões de habitantes em Portugal) obriga-nos a ser um parceiro entre os demais, cabendo, sem sombra de dúvida, ao Brasil (país com perto de 200 milhões de falantes do Português) o papel decisivo quanto ao futuro da língua portuguesa no mundo.
Quanto à marca cultural que nos vem da língua, tal asserção não passa de uma falácia. As línguas sempre se alteraram ao longo dos tempos. (…) O Português moderno nasce só no século XVI. Daqui até aos nossos dias as mudanças têm sido abissais e prometem continuar a bom ritmo na língua portuguesa e em todas as línguas do planeta. Acho que não há motivos para alarmismos desnecessários. (…) A língua é um aspecto cultural entre muitas outras dimensões que nos caracterizam como povo. (…) O que importa saber é se essas mudanças nos enriquecem, se aproximam cada vez mais os diferentes povos e raças, e se reforçam valores e princípios morais que dignificam a existência humana. A partir do momento em que o acordo entrar em vigor deve haver um esforço por parte de todos nós para corresponder às regras que vierem a ser acordadas. (…) A herança literária tem mais a ver com as ideias, conceitos e crenças do que propriamente com o registo. (…) A língua portuguesa não é, desde o século XVI, a língua de Portugal. É sim a língua dos falantes do Português quer eles estejam na América, na Europa, na África ou na Ásia. O facto de nos encontrarmos neste momento a discutir formas de uniformização linguística deve ser motivo de grande orgulho para nós portugueses. Isso só pode acontecer com as grandes línguas, com as línguas de expansão mundial. As línguas com poucos falantes não têm nada para negociar. Correm inclusivamente o risco de desaparecer. O português não está em crise. Antes pelo contrário, está em crescimento nos quatro cantos do mundo. Por isso é que necessita de um acordo (…)".

Sata baixa tarifas inter-ilhas



Porto de Vila do Porto sob a intempérie 1991


SATA
Tarifas mais baixas nas ilhas

A SATA-Air Açores vai passar a oferecer tarifas promocionais inter-ilhas durante nove meses por ano anunciou recentemente o secretário regional da Economia.
Segundo Duarte Ponte, o Governo dos Açores, em concertação com a transportadora aérea regional, espera poder publicar, ainda em Fevereiro ou então em Março, um tarifário promocional, naturalmente com restrições, a vigorar no período de 1 de Setembro a 31 de Maio.
O governante avançou com estas explicações no debate, no parlamento açoriano, de uma proposta de Resolução, da iniciativa do CDS/PP, recomendando ao Governo que promova o estabelecimento de tarifas promocionais nos voos da SATA-Air Açores. Para o secretário regional da Economia, a proposta do CDS/PP é realista, daí que mereça a concordância do Executivo, ao contrário dos números avançados pela bancada social-democrata. Defender a descida das tarifas internas em 20 por cento, como faz o PSD, constitui uma proposta “irreflectida e demagógica”, considerou.

Ensinos católico e publico
Apoiam financeiramente “On Your Mark”

A importância do programa e do trabalho dos voluntários que fazem do programa de explicações para estudantes portugueses com dificuldades escolares “On Your Mark” foram já reconhecidos pelos conselhos executivos do ensino católico e publico. Este reconhecimento veio na forma de ajuda financeira da ordem dos 60 mil dólares por cada conselho executivo. "On Your Mark" é mais uma das iniciativas da "Working Women", organismo que conta com vários protocolos de cooperação com os Açores.



Voluntariado "On Your MArk"

O voluntariado e a inovação têm sido o combustível que tem feito rodar com sucesso “On Your Mark”, um programa de apoio a jovens luso-descendentes com problemas escolares. O sucesso é tal que os conselhos executivos do ensino público e católico decidiram apoiar financeiramente com 60 mil dólares cada, o programa. A funcionar na sua maioria com jovens estudantes universitários, que apoiam os seus compatriotas voluntariamente, o “On Your MArk” tem permitido, que muitos estudantes com problemas na escola, consigam prosseguir os seus estudos com sucesso. O sucesso do voluntariado, que está na base de muitos outros programas do “Working Women Community Centre”, foi no passado dia 22 reconhecido pelas responsáveis do centro.
Actualmente trabalham voluntariamente para o “Working Women”mais de quatrocentas pessoas, na sua maioria mulheres, de varias nacionalidades, que dão o seu tempo voluntariamente para ajudar aqueles com dificuldades. Os serviços que vão desde a tradução, explicações, apoio a adultos, grupos de inter-ajuda, emprego, formação profissional, saúde entre outros, dependem muito da boa vontade das voluntárias e no espírito de inovação do centro para responder aos desafios e equipar os indivíduos com as ferramentas para o sucesso. Esta iniciativa de reconhecimento do voluntariado foi também um momento para troca de impressões entre os presentes.
O Working Women Community Centre foi criado em Junho de 1976 com o objective de apoiar as mulheres recentemente chegadas ao país através do aconselhamento nas áreas do pré - emprego e consolidação do mesmo. Os grupos étnicos para os quais o centro foi no seu início criado centraram-se em volta das mulheres portuguesas, latino-americanas, das Caraíbas e Africa.

DIVINO
III Congresso Internacional das Festas do Divino

Grandes convidadas são as Comunidades


Espírito Santo em Oakville

A tradição do Divino Espírito Santo nas comunidades é uma das marcas indeléveis da identidade açoriana na diáspora. Por toda a parte onde vivem açorianos, o culto ao divino é uma realidade que passa de geração em geração. Do Brasil às Bermudas, Estados Unidos e Canadá o Espirito Santo é uma presença forte da cultura açoriana e marca já o calendário religioso e profano das comunidades. Uma tradição que se abre também aos estrangeiros que se foram acostumando a ruas fechadas e a sopas distribuídas a todos. A celebração do divino tem sido durante os tempos e muito particularmente nas últimas décadas, tema de muitos estudos académicos. A importância do simbolismo e as transformações e adaptações do divino é tal que a região autónoma vai pela terceira vez organizar mais um Congresso Internacional sobre as Festas do Divino, que este ano irá decorrer, entre 15 e 19 de Maio em Angra do Heroísmo.



Esta é uma iniciativa da Direcção Regional das Comunidades (DRC) e da presidência do governo regional que surge na sequência das duas primeiras edições, realizadas nos estados brasileiros de Santa Catarina e Porto Alegre. Esta III edição pretende assim “dar continuidade aos temas então desenvolvidos, tratando aspectos que desvendem as evoluções que conduziram às actuais manifestações em louvor do Espírito Santo”. Os interessados em participar neste evento podem obter mais informações e ficha de inscrição através do http://www.azores.gov.pt/Portal/pt/entidades/pgra-drcomunidades/. As inscrições encontram-se abertas até ao dia 31 de Março.

Friday, January 25, 2008

O Pico no Feminino


Breves e serenas têm sido as minhas passagens pela ilha do Pico. Uma ilha que desde sempre se projectou no universo açoriano como uma ilha de homens.
Pico, a ilha do baleeiro: tecto e chão firme do homem destemido, que se aventurou pelas artesanais técnicas da caça ao majestoso cetáceo, encontrando no coração e na pena da maioria dos criadores de literatura e memória da ilha, um espaço privilegiado. O Pico (...), sacudindo-se de quando em vez dos abraços voluptuosos das etéreas nuvens, ou das carícias salgadas das ondas quando estas se insinuam em lânguidos sussurros pelas entranhas das barrocas do mar; o Pico do homem da terra que conquistou as andainas (estas faixas de terra entre a montanha e o mar) para as impregnar de batata, milho, trigo…; a ilha do homem que conquistou os mistérios – terrenos outrora de cultivo cobertos de lava durante as grandes erupções do vulcão do século XVIII;
O homem da vinha explorando espaços férteis por entre a pedra, penosamente transportada para formar os maroiços, testemunhos impressionantes - à beira do desaparecimento para perda da riqueza cultural e histórica da ilha - das dificuldades do homem em romper terreno fecundo.
Esta ilha é celebrada na sua imponência masculina, numa “injusta’ omissão da mulher picoense. Basta um olhar atento, meio dedo de conversa nas canadas da memória entre um figo maduro, uma aguardente da ilha, o bolo e um caldo de peixe para perceber que desde a azáfama da baleação, ao pastoreio, ao transporte da pedra para o maroiço e da lenha para o forno, à plantação das figueiras e da vinha, passando pela recolha do fruto para a aguardente, a atenção ao foguete anunciando a baleia e correr pela ilha fora, deixando os filhos sós e protegidos pelo silvado, para alertar o companheiro na encosta pescando; o carregar de canecas de água à cabeça e percorrer quilómetros para transportar comida e leite dos locais onde os homens cuidavam dos animais; tratar a terra para o plantio dos cereais, as infinitas tarefas domésticas, passando pelo culto religioso, a mulher picoense moldou o Pico como nenhum homem o fez. Nomes de mulheres na literatura e estudos históricos ou sociais são poucos. Um destes nomes que recentemente me chegou às mãos, foi o de Francisca Catarina, que viveu em S. João de 1846 a 1940. A leitura deste trabalho de Maria Norberta Amorim e Alberto Correia transportou-me para aqueles dias de Verão passados a entrevistar mulheres picoenses ex-emigrantes, que haviam regressado à ilha. Com elas descobri os encantos femininos do Pico, a labuta para conquistar terreno à lava que borda a negro os quintais da ilha. Há que fazer justiça à mulher picoense, através da recuperação da sua memória, dos estudos sociológicos e históricos. Vejo Francisca Catarina numa quente tarde de Outono, com o avental a transbordar de figos frescos, sentada junto à sua Casinha das Cavacas – território de montanha, que segundo estes autores, conquistara um espaço especial no coração de Catarina. Sem dúvida, o Pico tem muito de feminino.

"Três foi a conta que Deus fez"


“Três foi a conta que Deus fez”. Assim dizia a minha avó. Assim o ouvi pela vida fora. Todavia, esta minha relação entre os números e o sagrado não se ficou por aqui e em épocas diferentes da vida fui confrontada com outros números, entre eles o zero, o seis e o sete. Os seres humanos sempre buscaram um sentido simbólico para os números. Se mergulharmos no fascinante universo da numerologia, descobrimos que para muitos filósofos gregos, entre eles os mais conhecidos Platão e, sobretudo, Pitágoras, a ciência dos números, era uma ferramenta crucial para o conhecimento da época e tinha o poder de mostrar a harmonia do universo. Pitágoras, por exemplo dizia que a realidade era pura matemática e que cada número tinha as suas características muito únicas. Pelo mundo fora, povos diversos expressam este fascínio humano pelo significado misterioso dos números. No caso dos deuses aztecas, cada um possuía o seu número e a sua cor, símbolos que tinham um relacionamento directo com a sua posição no cosmos. Mas voltando à minha avó, que teimava dizer que "três foi a conta que Deus fez”, resolvi mergulhar nesta coisa dos números e descobrir (ou pelo menos tentar), o significado desta premissa cuja validade a minha avó repetia e admitia sem demonstração prática. Porque teria Deus escolhido um número ímpar? Talvez numa comemoração discreta do caos. Se tudo gira em dualidade: entre o bem e o mal, o belo e o feio. Dentro e fora, quente e frio, homem e mulher, a noite e o dia, porquê trazer mais alguém para semear a confusão? Ora nesta aventura através dos números passo primeiro pelo zero, pois significando nada na sua essência, tem um poder enorme ao nível do infinito. Para imaginar a grandeza do infinito costumava, em criança, juntar zeros a um só número e assim perder-me na circunstância do infinito, na imensidão que representa o vazio, ao mesmo tempo absoluto, o nada a não existência. O zero permite um mergulho ilimitado no nada, que apesar disso, não deixa de possuir a capacidade do ilimitado. Experimente juntar zeros ao seu cheque e vai ver que as possibilidades são ilimitadas. O zero na sua expressão física representa também o ovo, o princípio de todas as coisas. Depois veio o 7: os sete dias da semana, No Novo Testamento, Jesus convida Pedro a perdoar seu irmão 70 vezes 7, a missa do sétimo dia. Mas não é só entre cristãos que o sete é considerado um número especial. Existem os sete ramos da árvore cósmica dos xamãs. O sete para os egípcios era o número da perfeição. Para os gregos, ele está relacionado aos cultos do deus Apolo e assim sucessivamente. Mas para mim era necessário saber mais sobre este três. Na tradição cristã associa-se o três com a trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. A família, por exemplo, é pai, mãe e filho – não sei como fica quando falta uma filha… Mas descobri também que o 3 leva assim de vencida, a dualidade do 2, representa o princípio, meio e o fim; o nascimento, vida e morte; céu, terra e as águas. Para muitos o ser astral ou emocional continua ligado ao corpo durante três dias após a morte e, segundo evidência científica, enquanto todos os sistemas do corpo humano morrem, o cérebro leva 3 dias para se “desligar” completamente. Para os chineses este é o número perfeito pois reúne o homem, a terra e o céu. E os gregos vêem a Deusa como uma entidade relacionada com a vegetação sob seus três aspectos: jovem, mãe e idosa.
Com toda esta carga simbólica e religiosa comecei a pouco e pouco a compreender melhor porque é que a minha avó, nascida e criada numa pequena freguesia de S. Miguel, teimava dizer que “Três foi a conta que Deus fez”. Longe de toda a ciência dos números, ela bateu tudo e todos com o seu conhecimento. E enquanto para ela a fé era razão suficiente para em números representar a essência do seu divino, muitos físicos e matemáticos da cristandade acreditam que os números apontam para Deus ou em outros casos para uma entidade divina.
Portanto, da próxima vez que se confrontar com números não se esqueça da sua simbologia filosófica e religiosa.

Thursday, January 03, 2008

A morte do feminino





Sem dúvida que as duas mais eficazes armas da mulher são a sensualidade e a inteligência. Ambas felizmente dissassociadas das imagens que prevalecem na sociedade moderna, que forçam uma mentalidade muito estereotipada do que deve ser a beleza feminina. Sensualidade e inteligência caracterizam qualquer mulher e são independentes de conceitos de perfeição física. Qualquer mulher pode e deve ser sensual, independentemente do tamanho, feitio, cor, religião ou estado civil. Assim sendo e, uma vez que este trabalho é dedicado em parte às mulheres de países islâmicos, só porque se vive sob os preceitos dos islão, não se deixa de ser mulher com uma “cunnus” própria, inteligência e sensualidade. Sensualismo de acordo com o dicionário Editora da Língua Portuguesa 2008 é a “doutrina segundo a qual todos os nossos conhecimentos vêm das sensações, consideradas como condição necessária e suficiente de todos eles, mesmo os mais abstractos; é a doutrina segundo a qual o belo se identifica com o agradável;.” Ora haverá no mundo algum ser humano desprovido de sensações, de conceitos de belo e agradável? Não me parece! Tudo o que é sensual diz respeito aos sentidos. É por isso relativo ao prazer físico ou sexual e encontra-se relacionado com o voluptuoso, ou lascivo. Ora para quem já passou por pelo menos um país islâmico e lida com imigrantes de várias regiões islâmicas sabe bem como os homens gostam de olhar o sensual alheio, mas reservam o direito de matar uma filha, em nome de um Deus cruel e inexistente, em plena sociedade aberta, multicultural e último reduto por eles escolhido para em liberdade continuarem as suas crenças e melhorarem as suas condições de vida. No Canadá jovem adolescente só porque desejava mostrar a sua sensualidade revelando um rosto e um cabelo livre do “hijab”, o tradicional lenço islâmico, foi assassinada. Aos 16 anos, a jovem de origem paquistanesa Aqsa Parvez, 16 foi estrangulada pelo pai Muhammad Parvez, um devoto islamista só porque, como afirmou um dos seus colegas de escola "ela adorava roupa…ela só queria mostrar a sua beleza... ela só queria vestir-se como nós, como uma pessoa normal.” Ela é mais uma vítima da intolerância masculina dentro do radicalismo islão, que controla fortemente o desejo feminino de liberdade. Aqsa foi uma das muitas “mortes de honra”, homicídios levados a cabo por todo o mundo da diáspora islamista, onde as jovens gerações de mulheres pretendem fazer parte das culturas que as receberam. A violência contra as mulheres no mundo islão tem aliados também no Canadá junto de jornais de renome nacional, que teimam não tratar estas questões com sinceridade com medo de se imiscuírem em questões do foro privado e religioso. O escândalo é tal que mesmo feministas islâmicas criticam estas atitudes passivas dos media e o silêncio das suas irmãs ocidentais, que facilitam esta mesmo opressão. “As feministas ocidentais querem fazer crer que se preocupam muito com o destino das mulheres no mundo islâmico no exterior, mas ignoram o que se passa dentro dos seus próprios países". Inteligência é igualmente outro atributo que pode levar uma mulher à morte. O caso mais falado nas últimas semanas: Benazir Bhutto, que longe de partilhar a inocência e as descobertas da sua jovem conterrânea a viver em Mississauga foi vítima do monstro Taliban, que no fundo ela própria criou. Buttho foi contudo muito além da inteligência e sensualidade. Como escreve Rosie Dimanno no Toronto Star “esta foi uma mulher que mentiu e manobrou com brio, fascinando os seus mais teimosos cépticos com a sua inteligência, charme e beleza”. Atributos ainda mal manobrados por Aqsa Parvez, que nem pode ter os seus colegas de escola no funeral, porque a família decidiu enterrá-la mais cedo e noutro cemitério, longe de tudo e de todos, numa sepultura anónima como um animal sem nome ou identidade.

Humberta Araújo


Imagens da desigualdade - Pictures of inequality



A Story of Palestine

Veja o Link - uma história sobre a Palestina.

Wednesday, January 02, 2008